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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Rio de Janeiro

Jardins do museu da República
Uma sujeira que não é apenas das calçadas fedorentas de mijo humano, cocô de mendigos. Sujeira maior, é a que paira no ar, no olhar desconfiado das pessoas amedrontadas à mercê da corrupção que já não se preocupa em ser discreta, que desvia mais que verbas,... desvia a energia das pessoas, a vocação para a esperança e, basta olhar tais pessoas nos ônibus, nas ruas,... sem sorrirem, mudas, embrutecidas e absolutamente desacreditadas do que quer que seja. O Rio transformou-se numa praça de guerra, de uma guerra de pedaços, sem conquistas, sem vencidos,... sequer tem dono, ou, algum objetivo. Bem! Guerra nenhuma tem objetivo ou compensação, mas esta guerra,... de corruptos, drogas, politicagem, com tiros dirigidos a bandidos pobres, tiros que evitam os ricos empenhados em construir a toque de caixa obras faraônicas para acomodar uma olimpíada de última hora, que não comemora nenhuma vitória, nenhum grande feito em benefício real do povo. Ah!  O povo. O povo está sendo levado a uma situação de espoliação muito abaixo de qualquer crítica.
O mais impressionante dos fedores no Rio é a indiferença das pessoas, comendo salgadinhos nas lanchonetes maquiadas em gesso, com as manchas de xixi fedorento bem rentes as soleiras das portas dos estabelecimentos, com odores horríveis que surgem piores, estimulados pelo imaginário presumindo sobre o que pode haver por baixo do gesso, entre o gesso e as casas velhas - que aninham ratos em quantidades de dar inveja aos filmes de ficção do tipo - Os ratos atacam outra vez. Fico imaginando o que acontece no meio da noite, quando apenas restos de comidas em panelas mal cuidadas ficam expostas nas cozinhas desses bares e lanchonetes que servem alimentos no expediente da cidade, já sem mais... preocupação em esconder o descaso, o pano sujo de limpar rapidamente líquidos derramados e afins. Ai vai a ideia para reportagens burlescas: Uma câmara filmando à noite o movimento dos ratos nestas cozinhas. Algumas verdades são expostas mesmo, tal como a explosão do tipo que se deu num restaurante da praça da Bandeira há pouco tempo. Daí é possível perceber que sob a laje havia um arsenal para dizimar ratos do local e acho até, que a população se sente vingada, quando acontece um - explode tudo, expõe ferro retorcido, porcariadas mal cuidadas do local onde pessoas frequentam fingindo serem "clientes", de um mundo em plena decadência e, ao mesmo tempo, um mundo intrigante - rápido demais, de tecnologias fascinantes e tão curiosas que nos deixam querendo viver mais, ver mais, o desdobramento das novas fronteiras, discussões que pretendem aposentar as guerras de vez, transformando tudo em mercados e, tão rapidamente que tudo acontece sob nossos olhos curiosos, já sem tempo para o tédio, o lânguido, o bucólico. Curiosamente minha geração ainda pode ver o momento da transformação, guardando, cada um de nós, fotos do passado vivenciado, alterado,  com a chegada do celular, da internet, da relação gay, dos helicópteros como quase alternativa barata, a democratização em curso do oriente médio, de um negro presidente dos Estados Unidos. As maravilhas da visão da reforma do teatro Municipal no Rio, sob a direção de Carla Camurati, me deixaram um tanto compensado por estar no Rio,... ter que estar. Fui ver também um colégio em que estudei, o Juruena, no Catete e aproveitei para passar umas horinhas nos jardins do Palácio do Catete - Museu da República, onde, naquele sábado, centenas de pessoas também se refugiavam. Quase entrei também, num outro dia, no museu Nacional de Belas Artes, mas o meu tempo naquele dia não era exatamente livre.
O Rio desperta paixões e isto não posso negar. É impossível não pensar nas contradições da cidade, com sua história sobrevivendo aos maus tratos de uma sociedade apressada, ávida por sobreviver numa constante ameaça política e do narcotráfico. Esperar que um dia melhore é uma ilusão que não consigo descartar, mas isto não será para os meus olhos cansados.