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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Soltamente

Havia descoberto o amor, um amor intenso e irradiado pelos poros em forma de odor, um odor do mais fino perfume, aquele que fora criado apenas para tal propósito, vindo dos deuses entendidos nesta causa, que têm como objetivo, apenas o arrebatamento dos corações e nada além da aura envolvente divida entre os amantes em transe.
Mal podia acreditar na descoberta e assim aguardava sua caravana rumo a outro destino. Estava obrigado a deixar o porto, mais um porto e um amor ao sabor do vento frio, cortante de cabotagem.
No salão a dança e casais rolavam a pista com bebidas mágicas e sonhos impossíveis, agora a homenagear a descoberta,... Do amor, sua presença contagiante, definitiva e volátil.  A realidade, por sua vez, estava ligada ao dia, seu brilho e o rumo traçado pela companhia, representada por um capitão que funcionava como pastor arrebanhando suas ovelhas fugidias, embriagadas pela solidão de marinha. Da cozinha subia um cheiro de temperos em fritura que sugeria fome de amanhecer com as primeiras luzes do sol vindas de oeste sobre o mar, para cabeças em transe realizado, quando mais uma dose ligava as perdas momentâneas, adiando o fim, dando paz ao olhar para mirar o tempo, o destino duvidoso, traiçoeiro como o das águas ali, daquele mar em que fios de luz ocupavam aos poucos, o esboço do novo dia.
Pensamentos agora corriam livres e voltados para sua alma gêmea e seus cabelos muito curtos. Agora,...  Afastada de súbito por um capitão superior e razoável.
Onde estaria neste momento à outra alma, perdida e à sua procura talvez, encolhida em cansaço, enquanto a estúpida ocupação de um capitão que jamais conhecera o amor, o fazia seguir em frente, sob o zumbido do diesel, noites adentro e dias de tarefas intermináveis, para novo porto, onde cacos de um amor, de alma, de pele, podem tentar reproduzir no barulho dos bares, de forma inútil e impossível, outra história, sem a emoção estupidamente esvaziada. Tudo ruiu de repente, jogando por terra para sempre o covarde modo de ver a vida, enraizada por um destino reescrito, herança de alguém que não o havia prevenido do amor de alma, de gêmea e de fato; preparando-o para beber este elixir e deixar-se jogar deste penhasco, onde a queda é fatal, cruel e patética.
A angústia de o barco no balançar das ondas, por outro lado, é interminável, assustador quanto à promessa de longas noites, sem o desligar da chave dos pensamentos, ancorados e amarados como nunca ouvira falar. Por outro lado havia o risco do trabalho árduo e perigoso a bordo, que lhe exigia muita atenção, sendo ele agora insubstituível enquanto sonhar era dilacerante, impossível abortar.
A um passo da felicidade é mais do que suficiente, melhor do que experimentá-la dispersa e falida, no tombadilho duro e escorregadio. 
Em outra costa do mar não era diferente, pois ela também havia sido alvejada pela fortuna do amor e como toda fortuna, tem o preço muito alto que ela começava a pagar por um tempo muito indeterminado. Seus passos eram mais trôpegos depois das noites no bar de encontros, onde marines exigiam amor por bagatelas, muito aquém do amor que deveras sentia por um cara, agora no céu da China, distante noites e dias tão longos quanto improvável seu retorno. Era preciso recompor a rotina de bebidas controladas, atendimento diferenciado para suprir a carência de homens sedentos de sexo desavisado; sexo de função. 

Um comentário:

  1. Alfr4edo, isso parece trecho de romance português. Mudando de assunto: onde foi parar a minha foto ali nos seguidores???

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