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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Soltamente II


Pelas vias de vida, por estranha força com que ele se rendeu a paixão e perdeu o controle de sua casca protetora, agora passou de acusador a vítima no tribunal de seu próprio coração ora despedaçado, sob o sol escaldante daqueles dias de verão tropical, devido aos estragos causados a pessoas ligadas, tais como mulher e filhos. O navio cargueiro havia aportado no Brasil, em pleno mês de março, quando os termômetros atingem 40* ou mais. Os bares são animados na praia de Copacabana noturna e as bebidas mais coloridas, assim como as mulheres, mais cintilantes sob o neon dos letreiros. Seus pensamentos não o perdoavam e sugeriam um abandono, um desserviço ao navio de tantas jornadas e a volta imediata aos braços de uma brasileira encantadora em outras terras, enquanto ainda podia decidir por uma passagem aérea. Sua casa, mulher e filhos que dessem outro jeito, ou mais tarde uma solução. Era preciso desafogar-se, emergir e atender ao clamor, o chamamento daquela paixão, que por estatística dura em torno de três a quatro meses. Não saberia mais como sobreviver à outra viagem interminável, abraçado pela dor do desencontro com o destino implacável. Estava movido por esses pensamentos quando olhou para o capitão, que lhe fazia como sempre companhia nestas noitadas de irlandeses pelos bares do mundo e pediu mais bebidas ao garçom para àquela mesa onde pairava em suspenso um reconhecimento geral sobre Pitt e sua tristeza exposta. Neste momento de decisão tomada, que se desenrolaria com uma ida ao banheiro e um sumiço louco, o capitão Ned, movido talvez pelos deuses do amor, anunciou uma mudança nos planos de viagem. Seguiriam novamente para o porto de Miami por ordem da companhia, justamente onde deixara parte de seu coração esvoaçado, por uma mulher muito especial, que lhe arrebatara as entranhas e de saldos extremamente doloridos. De imediato sossegou seu corpo na cadeira e se pôs a pensar mais racionalmente, como era sempre conclamado por Ned, a respeito dos trabalhos diários, nos caprichos e perigo dos mares. Aos seus olhos, um milagre estava em andamento e animaram-se todos os colegas, mal disfarçando suas satisfações com o novo destino daquele barco que nunca o deixara na mão, com seus intrépidos motores, agora lhe parecendo cúmplices, como se influenciasse de algum modo na vida de quem lhe dava cuidados de flanelas, chaves de aperto e óleos de lubrificação. Estranha análise, porém de certa valia quando o mundo acabava de lhe oferecer chão outra vez para que pisasse. Novamente estava pensando, restabelecera comunicação inteligível e as palavras do capitão, foram como bálsamo para um cérebro em chamas e trouxe calma para um longo trago na bebida forte, trago dos que convém a um marinheiro destemido. Voltara à vida e um longo caminho o levaria a ela e quiçá o quisesse ainda do mesmo modo, na mesma intensidade,... Estimava que nada estivesse alterado, que o amor falasse mais alto, porque assim daria outro destino àquela paixão desmedida.  
Os dias no mar se passaram embebidos de ansiedade como se minutos virassem horas e os dias meses.  Nada de acordo com a vida de um marinheiro obrigatoriamente acostumado a solidão das horas pacientes, agora transformadas numa contagem de minutos e segundos. Ao fim de uma semana em viagem, finalmente Pitt avistava o porto, suas luzes nervosas e insinuantes. Tudo se tornara extremamente lento. Atracação, alfândega e outras rotinas sofriam imensa crítica íntima e um desejo de liberdade só crescia em seu peito contraído. Por fim na rua, recompondo-se tratou de diminuir seus passos, estabelecendo uma mentirosa relação entre sua vontade e a razão. Assim caminhou até o bar de encontros, pronto a ouvir o pior, pois tanto sabor não poderia permanecer suspenso, inalterado.  

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