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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Soltamente IV



Passou a vê-la então, sua paixão, totalmente acesa, sem defeitos, sem alterações na imagem guardada e vagarosamente foi chegando seus lábios aos dela, na mais profunda entrega que jamais havia experimentado. Sentia-se como um adolescente que acabara de descobrir o amor e o reencontro proibido.
De manhã suas pernas entrelaçadas as dela, acabaram por sentir o frescor da brisa, denunciada pelas rendas esvoaçantes penetradas na fresta da janela, do hotel Hilton. Levantou-se e deixou-se descansar a olhar sobre a cidade viva, perto de seu prazer transbordante, perto da vida em renascimento, perto demais da felicidade, onde o plano humano não encontra muito onde se segurar, tomar providências; Pois neste caso, estamos em estado suspenso, impensável a nós;... Seres sinistros, em busca da vida, movidos pelo medo: De ciladas, fomes, misérias, guerras, traições e todo tipo de angústias promovidas pelo fato da vida.
O café da manhã era servido e Pitt a observava atentamente, como se a absorvesse para si, fixando seu ser a sua vida, como se fosse possível roubar-lhe as formas e os pensamentos.
Quando Mira lhe perguntou o porquê de observá-la tanto, Pitt respondeu de modo direto que não era nada de mais. O seu pensamento seguinte foi a respeito de como faria para que toda sua conquista se mantivesse estável e permanente; O quanto pode ser permanente o amor.
Qual seria o prazo de validade daquela paixão?  Pensou. O que estava fazendo ali, junto à promessa de um adiamento? Seus pensamentos agora adquiriam racionalização, sobras de lógica, após longa noite de sexo e promessas. Não estava arrependido, mas preocupado, sereno e saciado, enquanto a vida corria lá fora, daquelas paredes de hotel onde toda uma realidade rodava, triturando como dentes de uma engrenagem poderosa.
Mira então o chamou para que saíssem e ele aceitou prontamente. Já na rua notou sua gazela saltitante como convém a alguém alegre, feliz com sua companhia e assim entrando aqui e ali, atravessando ruas, chegaram a um lugar onde Pitt fez questão de parar. Era uma floricultura, onde comprou umas flores e as ofereceu como prova de sua alegria em estar ali, ao lado da mulher que arrebatara seu coração, de modo tão inocente e despretensioso, em detrimento do quanto pode ser duvidoso o amor surgir entre a prostituta e um marinheiro, num bar de encontros. Dos escombros nascem muitas obras magníficas, dependendo da necessidade.
As ruas por onde perambularam pelas horas seguintes, não poderiam mais fazer parte de nenhuma memória, pois não havia lembranças de quanto andaram e por onde andaram,... Apenas andaram, ao sabor de ondas virando aqui e ali, a cheirar o amor que teimava em não ser discreto, por ser displicente e incauto em relação a tudo o que não fossem seus corpos, oferecido um ao outro. As horas corriam como jamais acontecera antes e o tempo e seu domínio os espremia, dando nós em suas gargantas sedentas, que teimavam em não soluçar, apenas rirem e de quando em quando, até um do outro, pelo trágico do que seria novamente se ver cada um, de um lado do mundo. Essa perspectiva se aproximava depressa demais e era preciso decidir o que fazer, pois não havia como congelar o momento, a circunstância. Não era possível mais transformar em agonia a leveza de seus corpos suspensos, suas almas em êxtase.
No hotel, embalados pelas cortinas esvoaçantes se amaram como felinos nervosos, marcando um ao outro, com unhas e dentes, determinando territórios na esperança de levar, cada um a seu modo, lembranças roxas, da qualidade do que sentiam.

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