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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Feijoada da Vovó

Feijoada da Vovó.
Foi depois de uma briga. Uma discussão e desentendimentos grandes em uma época difícil, onde muitas coisas estavam fora do lugar. Nesse clima de absurdos e também de tentativas para restabelecer o controle de nossas vidas, resolvemos no meio da noite, fazer uma feijoada. Nesta época minha companheira tinha bastante sensibilidade mediúnica e hoje em dia tem muito menos, mas, ainda tem muito contato – diria assim – e aos poucos vai deixando de lado as manifestações. Naquela noite, devia ser mais ou menos umas 23.00 horas, quando resolvemos ‘enquanto eu falava com a vovó’; Resolvemos em comum acordo, fazer uma feijoada. O feijão, os temperos, será que te, que não te e a feijoada foi se desenvolvendo com uma lenha a mais num fogão de lenha improvisado que já estava aceso. No fogo a vovó  pôs uma panela de barro e de vez em quando cantava baixinho um pedaço do seu “ponto” evocando forças para permanecer em plasma para fazer o que ela mesma gostava muito, que naturalmente era uma feijoada. Pôs os temperos para o feijão cozido andando de um lado para o outro e tudo chiou no óleo com cebola e alho na panela de barro em fogo brando – fogo controlado com puxadas na lenha e assopros na brasa para subirem estrelinhas fogosas na fumaça da noite de paz dos espíritos brandos, cansados dos açoites e que ali estavam para um descanso, numa espécie de concessão e comemoração. Só pude entender tudo aquilo melhor, muito tempo depois. Só alguns anos depois!
Enquanto o feijão refogava as partes iam sendo dessalgadas em várias fervuras, onde pés, joelhos, orelhas e rabos para serem por fim despejadas no feijão junto com o paio e a carne seca. O arroz ia também, branquinho, cozinhando ao lado da beleza da panela de barro e o balanço de uma senhora muito antiga que ora olhava a panela levantando a tampa e ora preparava a couve tirada do canteiro para cortá-la fininha como convém. As laranjas eram descascadas e abertas e, a mesa aos poucos ia sendo arrumada enquanto corriam as horas. De vez em quando ela bebericava sua pinga e parava para ascender e baforar seu cachimbo num certo prazer distante, pessoal e inatingível. Seu olhar era misterioso e sua fala, sempre séria e dirigida.
A feijoada ai se formando e o tempo passando. Quando olhei as horas, já passavam das três da manhã, uma manhã diferente onde a mesa estava posta com uma feijoada mais do que completa. E a lua? A lua estava cheia no ocaso, prateada e o céu, parecia aprovar àquela festa, pequena festa para homenagear uma amiga da gente, uma amiga que nos ronda e protege juntamente com toda uma falange de amigos que não nos abandonam. 
A mesa finalmente ficou assim encarreirada: Toalha branca de rendas / Coca Cola bem gelada / arroz / banana da terra cozida / panela de barro com a feijoada / couve refogada / laranja em gomos / nossa pimenta deliciosa / farofa na manteiga / a cachaça e o limão. Posso dizer que jamais terei o prazer de saborear algo tão bonito e apetitoso quanto aquela feijoada no quase raiar de um novo dia. 

Esta comemoração encerrou um período em nossas vidas que começou a partir do dia em que eu e a minha mulher nos encontramos na vida, que foi num período turbulento em que nós dois bebíamos muito e andávamos perdidos, cada qual por seu motivo. Aos poucos fomos reencontrando o chão para pisar e a vida foi voltando e, isto se deu pela concessão do tempo, de um ciclo, onde um perdão foi concedido e de novo pudemos caminhar na estrada – lado a lado – conforme fazemos até hoje na graça de Deus. Hoje entendo muito bem o que se passou e o porquê de tudo e até mesmo o desenrolar de todo o processo; Só não posso explicar mais porque isto exige uma autorização que não disponho.  O que realmente importa é enxergar a vida, sua nuance, seu momento, sua beleza e... Chegar até aqui com meus encontros e reencontros incríveis neste mundo perverso e belo de um aprendizado muito curto, intensivo e necessário para alguma coisa além... Além da vida!