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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Seu pai


 

 
Encontramos-nos pela primeira vez, depois do sinistro, num enterro e por um momento achei que tudo não tinha passado de um sonho e, que de repente a vida seguia igual. Eu olhava para o seu rosto com uma intimidade tão completa, quanto era completa nossa cerimônia um com o outro, porém, àquele rosto era apenas o rosto do cemitério, do  seu filho e o tempo passara sim  e,  o sinistro na minha vida, foi a perda da minha referência, do amigo, do consultor, do artista, do mestre que chamava seu irmão Roberto, carinhosamente, de ‘piolho’. Sobre mim, ele dizia que eu “não cheirava nem fedia”. Tinha ora em que era assim, bem filho da puta, só tratando com a verdade, porque hoje, o que acho de mim mesmo é exatamente isto.  Uma das coisas belas que guardo encaixado na memória foi uma noite, uma madrugada, em que ele dedilhava o piano na antessala envidraçada da casa de seu pai e nós etéreos pelo álcool falávamos por evasivas, cansados, mas sem vontade de interromper o torpor, à noite e a visão do prateado da lua refletida no mar, que apenas aquela antessala podia proporcionar. Sabíamos por mais do que intuição, que aquele momento jamais se repetiria.